Menopausa, probiótico via oral e bioma vaginal.

Parece estranho imaginar que uma bactéria ingerida pela boca consiga influenciar um órgão distante como a vagina.
A resposta é que isso acontece por mais de um mecanismo, e nem todos dependem da bactéria “viajar” do intestino até a vagina.
1. O intestino funciona como um reservatório de bactérias
As bactérias do intestino podem colonizar a região perianal. Como a distância entre o ânus e a vagina é pequena, ocorre uma migração natural de microrganismos para a vulva e a vagina.
É por isso que muitas mulheres com infecções urinárias recorrentes apresentam bactérias intestinais, como a Escherichia coli, colonizando o trato urinário.
2. Nem sempre o probiótico precisa chegar vivo à vagina.
Os probióticos modulam o sistema imunológico intestinal. Cerca de 70% das células imunológicas do organismo estão associadas ao intestino.
Quando essas bactérias interagem com o tecido intestinal, elas aumentam a produção de citocinas reguladoras, reduzem a inflamação sistêmica e
fortalecem a imunidade das mucosas.
Como a vagina também é uma mucosa, ela acaba sendo beneficiada por essa modulação imunológica, tornando-se um ambiente mais favorável ao crescimento dos lactobacilos naturais e menos propício para bactérias patogênicas.
3. Os metabólitos produzidos no intestino entram na circulação. As fibras fermentáveis alimentam a microbiota intestinal, que produz os acidos graxos de cadeia curta (AGCC) como acetato, propionato ebutirato.
Esses ácidos graxos de cadeia curta não ficam apenas no intestino. Eles são absorvidos para a circulação e exercem efeitos anti-inflamatórios em diversos tecidos do organismo.
Embora o butirato seja o principal combustível dos colonócitos, esses metabólitos também participam da regulação imunológica sistêmica e podem influenciar indiretamente o ambiente vaginal.
4. O ambiente vaginal depende principalmente dos estrogênios
Os estrogênios aumentam o depósito de glicogênio no epitélio vaginal. Esse glicogênio serve de substrato para os lactobacilos produzirem ácido lático, mantendo o pH vaginal em torno de 3,8–4,5.
A microbiota intestinal participa do metabolismo dos estrogênios por meio do
“estroboloma”. Quando o estroboloma está equilibrado, há melhor reciclagem e disponibilidade de estrogênios, favorecendo indiretamente uma microbiota vaginal rica em lactobacilos.
Os probióticos e as fibras podem melhorar a microbiota vaginal por quatro mecanismos principais:
Colonização indireta: lactobacilos do intestino podem migrar para a região vaginal.
Modulação imunológica: o intestino influencia a imunidade das mucosas, incluindo a vaginal.
Produção de metabólitos: ácidos graxos de cadeia curta e outras substâncias produzidas pela microbiota exercem efeitos sistêmicos.
Influência hormonal: uma microbiota intestinal saudável ajuda a regular o metabolismo dos estrogênios, favorecendo um ambiente vaginal propício ao crescimento dos lactobacilos.
Portanto, o benefício não depende apenas de o probiótico “sair do intestino e entrar na vagina”, mas sim de uma interação complexa entre microbiota intestinal, sistema imunológico, metabolismo e hormônios.
Dr. Daniel Magnoni